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janeiro 07, 2012

4. Dark Side on The Corner

Sentada no escuro, agarra o peluche. Para ela, o amanhã não existe. É apenas o hoje repetido. Só ela e o peluche. Porque o peluche a aquece, porque o peluche a olha da maneira que ele a olhava. Com mel nos olhos antes de a beijar, antes de se deitar ao lado dela, e passar-lhe a mão no cabelo, antes de lhe agarrar na mão enquanto exibia orgulhosamente nos passeios com os amigos. Tem saudades disso tudo. Tem saudades de ter saudades, da ansiedade de voltar para ele. Aperta o peluche enquanto as lágrimas lhe vêm aos olhos. Nalgum ponto da sua curta história confundiu saudades com depressão e agora não consegue sair do canto. 
A mãe bate à porta: 'Tens de comer, pequena.'
Pois tem de comer. E o que não percebe é que quando ela a deixou na berma da estrada, ela não chorou, ela comeu, e agora... Agora está a chorar que nem parva agarrada ao seu peluche de estimação, aquele que não teve coragem de lhe devolver juntamente com as outras prendas. E se alguém pergunta porque não, ela reponde sem sorriso, só lágrimas que é o que lhe resta do coração.
Depressão.

Pulga

setembro 19, 2011

3. Those Rivers Had Dried

Entra no consultório do oftalmologista. 
Já não chora, não que não queira, que vontade não lhe falta e razões também não. 
Arrancaram-lhe o coração do peito e atiraram-no contra o estômago (de certeza que foi um jogador de basebol profissional, tal foi a força) e custou-lhe voltar a restitui-lo ao lugar dele. Mas não chorou.
O médico concordou. Passou-lhe de receita algumas lágrimas, desejou-lhe as melhoras e encaminhou-a à porta. 
Ao sair do edíficio, pegou no telemóvel. 'Façamos um negócio proveitoso para ambas as partes. Dou-te todas as minhas memórias, todos os meus pontos de vista e tu... Tu devolves-me as minhas lágrimas... '

Negociação

Pulga

agosto 31, 2011

2. Crime Passional

Chega ligeiro, devagar, para a agarrar na anca. Cola-se a ela como um só. Ela sorri e continua a cozinhar, os amigos vieram jantar lá a casa e da sala ouvem-se os risos, a música na aparelhagem e os gritinhos histéricos. 
- Faz-me um favor e põe a mesa. Os pratos estão naquele armário, os copos no armário do lado, e os garfos naquela gaveta. - vai murmurando, apontando, sem se virar. 
- Que se passa, pequena? Estás distante..
Distante? Distante?! Não ouviu bem com certeza.
'Queres falar sobre distância?', murmura entre dentes, virando-se para ele. 'Distante andavas tu. Falavas de assuntos que não percebias e porquê? Para me tirares as calças. Meu grandessíssimo filho da mãe.', ergue a voz à medida que avança para ele, segurando a faca de amanhar a carne. 'Éramos história inacabada e tu foste a correr para os braços dela, sem pensar duas vezes, sem pensares em mim, sem pensares se havia salvação para nós.' Espeta a faca na perna, atingindo a femoral. 'Sangra até morreres, filho da puta, que nem ela te salvará.' Espeta-a novamente, desta vez nos genitais.
Afasta-se em direcção à sala, precisa de ir dar uma volta para desanuviar, mas volta para o jantar. Talvez uma das raparigas possa acabar o jantar, afinal a maior parte já está feita.
Quando sai de casa, ouve os risinhos na cozinha, aquele estúpido e aquela falsa. Ainda bem, que a convivência é rara. 
Raiva.

Pulga

agosto 30, 2011

1. Sad Love Song

Encosta a cabeça ao vidro do autocarro. Os fones tocam a música em alto e bom som. Tão alto e bom som, que ele é obrigado a tirar-lhe o fone do lado esquerdo. Entrou nesta paragem e ela não reparou. A pobre anda estafada de não fazer nada, e esta pequena fuga tirou-lhe o sono de noite para lho dar agora. 
Com delicadeza, pega na cabeça dela e encosta no ombro dele, enquanto lhe pega no mp3 e o desliga. Murmura-lhe a sua canção, assim ela até dorme melhor. Engana-se. Com um sorriso, ouve-se dois murmúrios descoordenados, uma voz rouca, típica de quem acordou. 
Os olhos mantém-se fechados enquanto ela canta, mas mesmo assim as lágrimas escorrem. Ajeita novamente os fones, liga novamente o mp3, e volta novamente o barulho. Ou a música. Ou o nada.
[Quem diria que já passaram dois anos?]
Os olhos vão ficar fechados até ao final da viagem, independentemente de tudo, esta é a fuga dela.
Negação.

Pulga