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julho 28, 2016

Agridoce

Quando me romperam o coração pensei que era a pior dor que ia sentir sempre, para sempre.
Mas hoje a vida sentou-me e deu-me uma lição tão grande…
Dor de amor amargo é tão ínfima comparada com a dor de romper os sonhos de alguém que é pedaço de ti.
Pegar num coração que ainda é criança e deitar-lhe em cima o ácido da adultez é, sem sombra de dúvida, a dor maior que vou carregar.
Protégémos-te tanto, demais até… E agora caiu a ficha e tive de te puxar o tapete…

Desculpa mas o amor, como a vida,  é um ananás, e estava na altura de parar de te o descascar…

Ai Shiteru (*) 





Borrega

março 20, 2015

Efermidades

[Digo-o tantas vezes que enjoa e até enoja.]

Porque não se ama como da primeira vez.
Porque tudo o mais são réplicas de um sismo de larga escala, são recidivas d'um incêndio colossal.
E deambulamos por entre tremores e faíscas, em busca exasperada por mais uma dose, mais um chuto daquele sentimento bruto que nos tira o chão.
Quando te vi a silhueta no cimo da colina, nesse dia morri.
Padeço de ti ...


(18/06/14)
Borrega 
                                                                                                                               
                                                                                                                             

fevereiro 05, 2014

Emaranhado d'emoções


Borrega

julho 30, 2013

nonsensical rant



Cacos colam-se, feridas cicatrizam. 
Mas cicatrizes, além do impacto estético, implicam a perda da integridade da pele e tecidos subcutâneos, facilitam infecções. Tecido cicatricial é mais vulneráveis a perda sanguínea e tem sensibilidade diminuída.
Quando o tempo é de chuva dói-me tudo ...

Borrega

Créditos:

setembro 28, 2012

Prantos vãos ...

Oriana está sozinha no cemitério. Nunca lá gostara de estar com mais gente do que a que lá jazia. Sempre dissera que era dos vivos que se tinha que ter temor e não aos mortos.
Senta-se sobre a tumba de sua avó, encarando-a na foto preta e branca e sussurra:
- Estou cansada 'Vó, não dormi... Rezei-Lhe de forma tão irada.
Tira do bolso um papel amarrotado. Estende-o sobre a pedra mármore, deixando assim à vista as letras pelas lágrimas borratadas. Aclara a voz e lê num sussurro sôfrego:
«
Roguei aos céus
E caíste-me no caminho
Anjo Negro
Varreste os campos,
As tuas asas bem abertas, 
na esquerda as 7 pragas, na direita os 7 pecados.
Agora as colheitas são estéreis, secas, ocas, amargas.

Eu, 
estupefacta p'lo rasgo que me fizeste na carne, p'lo pranto que me embutiste nos ossos, 
enfureço-me contra os céus.
Que roguei por um anjo e tu foste demónio desviante,
Anjo Negro, Lúcifer de auréola disfarçado.

As contas do rosário já os meus dedos as sabem de cor.
Correm-nas vexados e amargurados, pois ainda queimam com teu suor.
E, de joelhos rezando, pego em fita de tecido benzido,
Uso-a de espartilho pra me suster as entranhas.
 Esta ferida é chaga amaldiçoada,
Sei bem que só espartilhada, nunca sarada.

Nos campos secos nasceu um cravo,
Eu, de cicatriz fingida com esta fita alegre benzida,
Pego nas alfaias pra semear.
Mas preciso que me guiem, pois já nem na simples enxada sei pegar.
»

Suspira, com se lhe tivessem tirado um fardo dos ombros. Dá uma festa ao retrato.
- Sim 'Vó, sei que o pão amena todas as tristezas. Que o vinho e a música animam até a mais trôpega das almas.
Sorri e troca as velhas flores da jarra por um cravo.

Oriana ...

Borrega

Créditos:
Música: PJ Harvey - The Dancer
Filme: Red Riding Hood
Imagem: daqui

agosto 26, 2012

Inverno

Odeio o facto de teres "pézinhos de lã". Chegas do nada, meu Fantasma de memórias, e ligas a luz do que quero deixar lá bem no escuro. Assim vejo-te em todo o lado, quero-te em todo o lado, fico com o corpo enregelado.
Como é que algo se enraíza assim, desta maneira tão funda e sem fim, em alguém?
Como é que minto tantas vezes e me convenço tantas vezes que já não te amo e, do nada, num piscar de olhos, vergo sobre mim mesma a gritar por ti, a implorar pelo bálsamo dos teus braços?
Impressiona-me demais o tamanho do vazio que carrego. É por isso que me refugiei neste estado de não escrever (para quê vou ter sempre ao mesmo?), de não falar, de não gritar por ajuda, nesta mentira de que está tudo bem. Mas adivinha, Fantasma: O rei vai nu. E mais tarde ou mais cedo toda a gente vai ver, porque a mentira é um manto esfarrapado.
Mas até lá ando assim, a fingir que é Verão, quando apenas há Inverno em mim.

Borrega

Créditos:
Imagem: daqui
Música: Pearl Jam - Alive

agosto 07, 2012

Primavera

Uma criança puxa-lhe a barra do vestido. Olha para baixo, para aqueles olhinhos inquisidores e vivazes.
- Nana, o que é o amor?
Nunca lhe chamara avó, apenas "nana" e ela gostava, fazia-a sentir-se menos velha. Mas, como se explica a uma criança o que é o filho da mão desse sentimento que, seja carnal ou fraternal, nos arranca do chão, nos aflige o peito?
Um dia Alguém lhe tinha ensinado o que era...Então baixou-se, pondo os seus olhos cansados ao nível dos da vivaz criança e replicou:
- É mais do que ontem e menos do que amanhã.
Naqueles olhinhos aquietou-se a curiosidade.
- Entendes, pequena?
- Sim, então é o mesmo que a saudade.
E nela viu-se um sorriso antes de a sua cara se enterrar no cabelo da criança, para lhe depositar um beijo...

Créditos:
Imagem: Diane Arbus

janeiro 23, 2012

Quando estou na solidão do meu canto, constipada até mais não, e olho as caixas de medicação dá-me medo. Medo daquela voz cá dentro que me diz «Toma-os todos e poderás descansar.».
É que a voz é tão alta que me apetece tomá-los só para a calar ...


Borrega

Créditos:
Imagem: daqui

janeiro 13, 2012

de mortos e vivos

- Alguma vez beijaste um morto?
- Porquê?
- Porque, volta e meia, tens os olhos vagos e os teus lábios gelados. Já beijaste um morto?
- Já.

[#Há um silêncio de estupefacção, que é rasgado por um suspiro dorido.#]

- Já beijei um morto e dos piores que se pode beijar, um que estava vivo. Quando tomas um corpo quente em teus braços e ele fica em rigor mortis... Quando lhe olhas nos olhos reactivos e ao cruzar com os teus eles vagam... Quando teus lábios tocam o desse corpo e nada acontece.
- É por isso que tens ar de viúva?
- Tu és directa, não és?
É.
E sabes do que tenho mais medo?
- Do quê?
- De que, daqui a muitos anos, quando a libertadora demência da idade chegar, eu grite pelo nome desse morto. Já que agora o recalco nos confins de mim.
E sabes qual é o mal de beijares um 'morto-vivo'?
Por muitos lábios que adocem os teus depois, e por muito que gostes desses lábios, vais sempre querer beijar aqueles lábios de gelo até que eles ganhem vida.

Borrega

dezembro 08, 2011

Havia uma menina de saia vermelha e sabrinas brancas e havia uma tenda circense goliacamente arcoírica.
A menina tinha nascido duma arrebatadora paixão do homem bala pela trapezista equilibrista. E, em pequena, a mulher barbuda oferecera-lhe um jogo de facas.
Mas era por demais desastrada, cortando-se  de incontáveis vezes e maneiras. Os pais, preocupados com o xaile de cicatrizes que ela já tinha, rogaram-lhe por tudo que mudasse de arte. Ao que ela, numa agridoce simplicidade, lhes replicou:
- Deste xaile que me pesa aos ombros mais são as malhas tecidas por outros que pontos dados por mim. Mudar de arte, meus pais, só se criarem um número de engolir sapos, pois já quase não choro ao fazê-lo.
Colocando, a cada, um beijo na testa, rodou a saia vermelha na ponta das sabrinas brancas. Saiu da gigantesca tenda arcoírica e encarou o monocromático mundo que reinava fora desta.
- Adeus meus pais, vou antes plantar saudade, vou plantar cravos.



Borrega

dezembro 01, 2011




- Onde estás?
- Onde tu não chegas para me agarrar.

Borrega

maio 08, 2011

Naite iru

Quando entrei, apesar do sol que se fazia sentir lá fora, o quarto estava na penumbra.
Ela estava deitada, não, largada é o termo mais adequado. Ela estava largada, de barriga para baixo, sobre a colcha da cama religiosamente feita.
Os braços abertos, qual Cristo. No que pendia para fora da pequena cama individual segurava, já por pouco, uma folha escrevinhada.


«Hoje chorei, quer dizer estou a chorar... Melhor, não é só hoje, tenho chorado muito. Mas finjo que está tudo bem, e eu finjo tão mal para ti.
Sabes, disseram à Luna, na avaliação, que a falha dela tinha sido falta de auto-confiança.

É exactamente isto, é eu por muito que me esforce, achar que não te sou suficiente, que não mereço, que não estou à altura, que não tenho o direito de precisar de ti, de te pedir colo. É eu me sentir completamente impotente perante o facto de te saber a sofrer e não te poder curar...

Sabes qual é o meu maior medo? Que um dia me olhes nos olhos e me digas: "Já não te conheço.".

Porque, por vezes, já nem eu me conheço.

Porque ficas?

Porque não desistes de mim?

É que sabes, é inglório lutar por alguém que já desistiu de si mesmo. Ou que desiste por períodos...

Porque mereço tanto de ti?

Amo-te.

Sei que isso não muda as falhas e não me tira esta estúpida insegurança. Mas não deixa de ser das coisas mais verdadeiras que tenho.»


Peguei na carta e pousei-a sobre o teclado do computador.
Ajeitei-a na cama e cobri-a com a pequena manta que tinha aos pés desta.
A pequena precisa realmente de ganhar juízo.
Valham-lhe as gentes que sei que tem.


Oriana...



Borrega

Créditos:
Música:
Ao som do álbum "Let Them Talk" de Hugh Laurie

abril 04, 2011

Genesis


O amor altruísta nasce [obrigatoriamente ?!] dum amor egoísta.
Pois como será possível abdicarmos de tudo por alguém, querermos dar-lhe tudo, se não quisermos esse alguém só para nós, como parte de nós?
[o ser humano é egoísta por natureza!]







"Não me interessa que esteja frio. Não quero saber se tresando a cão. Faz-me esquecer como sou horrível. Faz-me esquecê-lo. Faz-me esquecer o meu próprio nome. Luta por mim!"

Borrega

Créditos:
Imagem:
daqui
Citação: Bella Swan in Eclipse

fevereiro 13, 2011

Stuff that, sometimes, comes by

Uma caneta pende, suspensa, sobre um guardanapo.
Sim, sobre um guardanapo!
E, naquele instante em que ela lhe toca, surgem cantos, doridos prantos que, pungentes, urgentes!, quase dilaceram o pobre guardanapo.

"Certos dias e horas, o coração aperta, a mente fica deserta e um oásis nela aflora.
Oásis d'águas turvas e flora dolorosa. Turvas das memórias que espelham, flora que fere pela beleza que tem.

Não se querendo enaltecer, é assim que se sente: um oásis no deserto - não pertence ali.

Não, não tem que ver com a sua beleza ou com o facto de ser especial, apenas se compara neste item: não sente que pertença ali.

Mas, se calhar, com jeitinho, é só mais uma crise de saudosismo."


Borrega

Créditos:
Imagem:
Eddie Vedder
Música: António Variações - "Estou Além"
Ana Moura - "No Expectations"
Radiohead - "Creep"

janeiro 10, 2011

Carta#2

[Letters: #7, #12, #13, #14, #19, #20, #28]


Sozinha, uma brasa finda-se em fumo, tal como todas as que a rodeiam se esfumam no centro da minha lareira, agora apenas de cinzas.
Esfumam-se como as memórias que tenho da dor, do abandono, da paixão, do amor, de ti, de mim, de nós. É tudo um fumo difuso que se mistura nos meus olhos quando estes se ausentam desta realidade.
Amo-te, ainda te amo [naquele local do meu coração em que te tranquei], quão doentio é isso sabendo que já não existes?!?
Ontem dei de caras com fotos tuas, agora com as mudanças anda tudo aos trambolhões...
E, como andavas "livre" assim, a porta daquele sitio cá dentro em que te tranquei, quer dizer ao fumo irreal que és, abriu uma greta...

[Dormi inquieta.
Voltei a trancá-la.]


Os meus dedos enredados nos teus caracóis, eu aninhada em ti, mais fumo que se esvai, extinguindo as brasas.
[Esvais-te, aliás, esvai-se o fumo empoeirado das memórias que és.]

Borrega




P.S.- [Apesar da cicatriz] ...
Lembro-me da última coisa que te pedi, na última carta que te escrevi

[queria-a ...] .

novembro 29, 2010

Voando Diferente

Contorcida debaixo desta montanha de cobertores a nh'alma arrepia-se e quero ver um mar cálido jorrar de meus olhos ... mas eles estão secos, neles nada brota.

Era assim que estavas enquanto escrevias a Kafka?
[pergunta estúpida!]


Quanto muito estavas franzida debaixo de farrapos, doente, moribunda, trancafiada na holocaustica Auschwitz, sendo essas cartas teu arquejo de liberdade...
[estavas milenárias vezes pior!]

Também escrevo [escrevia?!] cartas, qual "Kafka à beira mar" ... mas tropecei a caminho da praia [!] .

Aqui estou eu nesta auschwitz em que os guardas são pessoas normais, livres [como eu, como nós!] que cingem com regras, etiquetas e aparências: algozes do politicamente correcto.
A Auschwitz onde estiveste era feia e cinzenta, a onde estou escrevo-a com "a" pequeno, chamam-lhe sociedade e tem a fronte engalanada. Floreada fachada que às minhas cartas deu [dá?!] facadas. [nisso bem aprendeu com a tua de "A" grande ...]

Como se escrevem cartas d'amor enclausurada num sítio onde não o há?
Onde ele é um
incomodo?
Onde ele é uma questãozinha de menor?
Como escreveste tu "amor" num dos mais hediondos sítios?
... Mas tu escreveste .
[!]



Eu rabisco cartas...
Um dia queria ser "Kafka à beira mar"...
Almejo cartas d'amor simples e vorazes ...
[Cartas d'amor] sobre o nada que é tudo ...


{Há umas semanas atrás, fui eu e o Padrinho ao UnderGreen e havia uma representação para recordar as vitimas do Holocausto. Representaram uma adaptação das cartas de Milena a Kafka, e eu amei.}

Borrega

P.S.- "This is a dedicatory song": Padrinho

Créditos:
Imagem:
daqui
Livros referidos:
Milena: The Tragic Story of Kafka's Great Love, de Margarete Buber-Neumann
Kafka à beira mar, de Haruki Murakami (nunca li o livro,referi o titulo porque é o que descreve mais correctamente uma imagem que tive enquanto escrevia...)

novembro 13, 2010

Cacos de Porcelana

Pt.I - [...]

Apetece-me berrar, mas para alguém que já rebolou num mar de silvas é picuinhas berrar por meia dúzia de espinhos...
Mesmo assim apetece-me, apetece-me muito. Contudo não vou quebrar, não posso cair de novo. Isto é só o eco de saber que não te posso mais ter nos braços, não como já te tive. Que não posso mais ver os teus olhos a mudar para verde com a luz do sol, que não posso mais ouvir a tua voz no meu ouvido, sentir o teu cheiro...
Paciência!
Porque tu me relembraste (entre muitas coisas) que em mim tenho tudo o que preciso para me aguentar de pé.
É por isso que te chamei...
... Redenção ...

Pt. II - "Just because it felt good, doesn't make it right"

Todos nós temos pequenos prazeres mundanos. Beber um café e fumar um cigarro é um deles e enche cafés, e enche esplanadas, espreita a cada esquina, em cada rua.
Tu foste pensativo cigarro, fumado à janela enquanto eu bebericava o meu café. Despertaste-me do tropego sofrimento em que eu mergulhara. Tu deste-me Vida...
Não fizeste promessas, vieste e foste, tentando não magorar mais, não piorar o que já doí-a (doera?!?) por demais.
Plantaste Vida, deste-me força para [re]erguer o que tive de deitar abaixo.
Agora resta o agridoce sabor da cafeína e da nicotina...

Obrigada por tudo .


(farinha do mesmo saco)

Borrega
(23/02/2010)

outubro 18, 2010

{Rápidas carícias dos instantes volúveis}

O dia já ia alto quando foi acordada com um beijo terno nos seus lábios adormecidos. O corpo, antes lassamente adormecido ao seu lado, estava agora sobre ela, olhando-a com toda a ternura que se possa imaginar espelhada no mar dos seus olhos e a tentar dar-lhe o mais calmo despertar possível...

Retribui-lhe com um beijo cálido e apaixonado...

[Epitáfio ao texto Ela e "Qualquer Coisa"]

Borrega
(2008/09??)

Créditos:
Imagem: daqui

outubro 08, 2010

Gotejar

As folhas estão a cair.
A chuva também e, nas abertas que dá, correm ceifeiras para apanhar o milho. Correm os homens às vindimas.
É a melancolia que sopra vestida de vento, é a tristeza vestida de brisa...

Cai-te a lágrima.
Treme-te o peito.
Ajeitas o cabelo para que te cubra o leito do pranto.
Não te hão-de ver chorar e, se não virem, é mais fácil mentires que não o fizeste.

Chamam por ti...
Estás aluada, perdida naquelas escadas, não ouves.
Insistem. [Graças a Deus.]
Parou de chover.
Raia, tímido, um feixe de sol. [Tão ténue.]

Cai-te a lágrima.
Treme-te o peito.
Outra vez...

Deitas-te na tua cama.
Fechas ao de leve os olhos.
Está lá uma mão que tenta segurar algo.
O tremor dos dedos mostra que está ansiosa.
"Que é aquilo que espera pegar?
(...)

Uma ampulheta...

Tem a areia no fim."

E uma voz rouca diz-te:
"Chora que é hora, o ciclo chegou ao fim.
Chora que sou teu destino e te sentenciei assim."


Cai-te a lágrima.
Treme-te o peito.
Mais esta vez...

Acordas de face encharcada,
Alma alagada.
Ergues-te num pulo e sais à rua.
Está a chover.
Isso é bom, que assim ninguém vai ver o temporal do teu rosto.
"Ele disse ciclo, logo ele deve de, mais tarde ou mais cedo, virar a ampulheta.
Até lá choro, até lá é tempo de chover..."


Cai-te a lágrima.
Treme-te o peito...
[Enésima vez?!?]

O sol já raiou.
Tocas o rosto,
O teu choro parou.
[por enquanto...]

Borrega

setembro 22, 2010

Lust's Struggle [Hunted Down]

{Está uma mulher, encostada a um muro, que olha uma paisagem onde um homem está a trabalhar. Quando os seus olhos se cruzam com a figura masculina ela estarrece... Pensava-se ali sozinha...}

Olha-o em esforço, o suor banhando-lhe o corpo. E arranca-se-lhe um suspiro... Ou terá sido um uivo de desejo latente?
Ela olha queda o corpo grotescamente maior e mais forte que o seu. Alto, de ombros tão largos que lhe fazem lembrar um forte. Num braço apenas a tomaria e, tem a certeza, mesmo qu'ela lutasse e barafustasse, a deitaria abaixo...

{A mulher abana a cabeça, incrédula. Murmura: «Que raio de pensamento para se ter...»
O homem, cansado, pára um pouco o seu trabalho. Encara a paisagem imensa da solidão que o rodeia. Então os seus olhos encontram os dela e a solidão quebra.}

Olha-a como um predador encara a presa. Perto dele ela é simplesmente tão indefesa, um pedaço de carne fresca.
Apetece-lhe saltar-lhe à jugular, ouvir aquele uivo gemido antes dela ceder à sua superior capacidade física. E, depois de subjugada, brincar com ela naquele estado inebriado em que a asfixia e os múltiplos toques a deixariam...

{Ela está desconcertada com a força brutal dos olhos dele. Quer baixar a cabeça, sente-se exposta demais, mas não consegue. São olhos hipnotizantes!}


Continua a olha-la. A ideia obstina-o e contra o muro já não vê só a presa-mulher, ouve uma taquicardia sonora, vê uma ânsia, uma ponta de pânico. Avança para ela!

{«Ele vem lá!», e, quando este pensamento aflora, o tempo pára!
«Estou em pânico, será que ele percebe?
Porque estou eu em pânico?
Vou "morrer".
Ele que venha. Sim! Ele que me aperte a jugular com as suas mandíbulas!

Estou suicida?!?!

Não... Quero-o, apetece-me a sua superioridade predatória!!»
O tempo volta a correr! }


O corpo dela está esmagado contra o muro.
O corpo dele sente a carne do dela.
Os uivos orquestram o ar.











Borrega

P.S. - "This is a dedicatory song": Lau {para sempre}

(Texto fictício)

Créditos:

Música:
Ben Harper - "Sexual Healing"
Caro Esmerald - "That Man"
Muse - "Stockholm Syndrome"
Imagem: daqui