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setembro 28, 2012

Prantos vãos ...

Oriana está sozinha no cemitério. Nunca lá gostara de estar com mais gente do que a que lá jazia. Sempre dissera que era dos vivos que se tinha que ter temor e não aos mortos.
Senta-se sobre a tumba de sua avó, encarando-a na foto preta e branca e sussurra:
- Estou cansada 'Vó, não dormi... Rezei-Lhe de forma tão irada.
Tira do bolso um papel amarrotado. Estende-o sobre a pedra mármore, deixando assim à vista as letras pelas lágrimas borratadas. Aclara a voz e lê num sussurro sôfrego:
«
Roguei aos céus
E caíste-me no caminho
Anjo Negro
Varreste os campos,
As tuas asas bem abertas, 
na esquerda as 7 pragas, na direita os 7 pecados.
Agora as colheitas são estéreis, secas, ocas, amargas.

Eu, 
estupefacta p'lo rasgo que me fizeste na carne, p'lo pranto que me embutiste nos ossos, 
enfureço-me contra os céus.
Que roguei por um anjo e tu foste demónio desviante,
Anjo Negro, Lúcifer de auréola disfarçado.

As contas do rosário já os meus dedos as sabem de cor.
Correm-nas vexados e amargurados, pois ainda queimam com teu suor.
E, de joelhos rezando, pego em fita de tecido benzido,
Uso-a de espartilho pra me suster as entranhas.
 Esta ferida é chaga amaldiçoada,
Sei bem que só espartilhada, nunca sarada.

Nos campos secos nasceu um cravo,
Eu, de cicatriz fingida com esta fita alegre benzida,
Pego nas alfaias pra semear.
Mas preciso que me guiem, pois já nem na simples enxada sei pegar.
»

Suspira, com se lhe tivessem tirado um fardo dos ombros. Dá uma festa ao retrato.
- Sim 'Vó, sei que o pão amena todas as tristezas. Que o vinho e a música animam até a mais trôpega das almas.
Sorri e troca as velhas flores da jarra por um cravo.

Oriana ...

Borrega

Créditos:
Música: PJ Harvey - The Dancer
Filme: Red Riding Hood
Imagem: daqui

maio 08, 2011

Naite iru

Quando entrei, apesar do sol que se fazia sentir lá fora, o quarto estava na penumbra.
Ela estava deitada, não, largada é o termo mais adequado. Ela estava largada, de barriga para baixo, sobre a colcha da cama religiosamente feita.
Os braços abertos, qual Cristo. No que pendia para fora da pequena cama individual segurava, já por pouco, uma folha escrevinhada.


«Hoje chorei, quer dizer estou a chorar... Melhor, não é só hoje, tenho chorado muito. Mas finjo que está tudo bem, e eu finjo tão mal para ti.
Sabes, disseram à Luna, na avaliação, que a falha dela tinha sido falta de auto-confiança.

É exactamente isto, é eu por muito que me esforce, achar que não te sou suficiente, que não mereço, que não estou à altura, que não tenho o direito de precisar de ti, de te pedir colo. É eu me sentir completamente impotente perante o facto de te saber a sofrer e não te poder curar...

Sabes qual é o meu maior medo? Que um dia me olhes nos olhos e me digas: "Já não te conheço.".

Porque, por vezes, já nem eu me conheço.

Porque ficas?

Porque não desistes de mim?

É que sabes, é inglório lutar por alguém que já desistiu de si mesmo. Ou que desiste por períodos...

Porque mereço tanto de ti?

Amo-te.

Sei que isso não muda as falhas e não me tira esta estúpida insegurança. Mas não deixa de ser das coisas mais verdadeiras que tenho.»


Peguei na carta e pousei-a sobre o teclado do computador.
Ajeitei-a na cama e cobri-a com a pequena manta que tinha aos pés desta.
A pequena precisa realmente de ganhar juízo.
Valham-lhe as gentes que sei que tem.


Oriana...



Borrega

Créditos:
Música:
Ao som do álbum "Let Them Talk" de Hugh Laurie

janeiro 15, 2011

Secret Sigh


Tenho saudades tuas (...)
(...) Das tardes silenciosamente acompanhada, dos passeios, do sol a nascer sobre nós.
Tenho saudades, tenho tido saudades, muitas.

Oriana...
(19/03/2010)



P.S. - E assim como o sol nasceu e se pôs sobre nós, também as saudades se puseram e não mais nasceram...
(15/01/2011)

Borrega

Créditos:
Imagem: daqui
Post: mais uma carta para a caixa...

janeiro 09, 2011

Lost Whises ...

«Palpita doce no peito, ofega plo leito. Corpo teu, perfeito remédio para o meu... Unguento milagroso para esta ferida que é fome de dar, de amar...
Mas estou perfeitamente em mim, não te tenho, nem ao abrigo do teu corpo prazenteiro. Desejo carmim, desta minha ternura sem fim, desta menina querubim.

Meus ouvidos têm saudade da brandura da tua voz e da tua boca que era foz de um mar de palavras do teu fundo... Beijos e carinhos postos em mim.

Hoje adormeço assim, hoje tenho a sensação de ti em mim.»




E a mulher à beira rio, pés a chapinhar na água, enrola aquele pergaminho e deposita-o numa garrafa. Tapa-a e entrega-a ao rio.

Oriana acorda, já não está no rio à beira jardim.
Por onde andará a garrafa, já estará no mar?

Oriana...

Borrega
(14/04/2010)
Créditos:
Imagem: daqui

novembro 28, 2010

Sozinha, não só

- Estou sentada num sofá, sozinha. - escreve Oriana.

Suspira e retoma a escrita.

- Mesmo que estivesse num café apinhado, numa mesa com um grupo alegrado, continuaria sozinha. E isso não tem mal, isso é normal: estamos todos sozinhos, sozinhos na nossa individualidade, no nosso caminho. Estou sozinha, mas não estou só. Estar só é o verdadeiro problema. Estar só é não ter fé, é estar mergulhado numa agonia e num vazio golíacos. Estar só é não ter caminhos paralelos ao nosso, é não nos fazermos companhia a nós próprios, é abandonar-nos. Agora sei estar sozinha. Tinha-me esquecido como era, mas tu relembraste-me, reensinaste-me.

Fecha os olhos, relembrando-o. Encara a folha como se lhe visse os olhos ensolarados.

- Estou sentada num sofá, sozinha. Aliás, comigo.

Oriana...
Borrega
(19/03/2010)

Créditos:
Imagem: daqui

outubro 19, 2010

Mellencamp, leia-se: Carta à Alma


Este Corpo que vêem é vaso da nh'Alma. É mutável a ritmo diferente do dela e a Consciência esforça-se por não se perder entre o ritmo citadino do Corpo e o country rock duma Alma de viola em punho.
E quando este Corpo dói do cansaço e do alucinante vai-e-vem das responsabilidades atiro-o para uma cama d'olhos vendados. Ele geme de dores nas costas, lá bem no fundo da espinha, contorce-se. Arranja, a custo, aninho e nas pálpebras fechadas vê a Alma, menina à varanda, com voz rouca, a cantar as suas baladas.
O Corpo chora.
A Alma toca.
A Consciência tenta racionalizar o choro.
O Corpo alaga e desmorona ao som d'Alma.
Ele chora a distância da Alma, ele chora o facto de, naquele nojento e oportunista ritmo citadino, não a verem nele, tatuada nas entranhas, motor último da sua individualidade incompreendida.
Era tão mais fácil quando tu, Consciência, eras menina como ela, inocente e sem macula. De feridas só tinhas os típicos joelhos esfolados de correres com ela pelos meus prados inteligíveis. Era mesmo muito mais fácil, suportável, quando eu não ligava nenhuma, quando simplesmente me estava a marimbar para as tendências, expectativas e opiniões.
Mas crescemos, eu e tu, por ela. Porque, pelo menos ela, tem de continuar menina de viola country em punho, tocando para nós. Tocando o nosso hino de resistência à demência social maioritariamente instalada que incentiva à facada nas costas e ao espezinhar do próximo.
O Corpo e agora a Consciência choram, olhando a menina de viola.
A Alma, essa, ri, sempre de dedos nas cordas, é que o mal do crescimento está à espreita e quem canta seus males espanta! Ela canta, ri, brinca, mantêm-se menina essência: Oriana...
Eles choram.
A música dela abraça-os, acarinha e conforta-os das entranhas!

Oriana...
Borrega

Créditos:
Música:
John Cougar Mellencamp - "Jack and Diane" e "Hurt so good"
Imagem: daqui

setembro 06, 2010

Noite sem Norte

- És uma merda! Fizeste merda!

Oriana está a ser ditatorial consigo mesma e sabe disso.
Não são os mexericos nos corredores que a constrangem, mas sim a vergonha que tem de si mesma neste momento.

- Por um momento quis não ser tão consciente, quis não ser tão eu... Fiz merda!
- Oriana...
- Não adianta, não vai ser com palmadinhas na cabeça que isto vai lá. Mandei às urtigas as coisas em que acredito. Magoei-me a mim mesma... Burra de merda! Infantil! Imatura!
- Oriana, já foi... Já passou.
- Dói...
- Está viva, é óbvio que dói. Tu auto-retalhaste-te!

A Consciência assume agora um tom ainda mais severo que o dela.

- Porque raio fiz merda?
- Tu sabes. Estava a doer, mas não o suficiente. Agora é agoniante, tira-te o sono, sentes-te uma merda, recuperarás melhor. - Hesita. - Espero...
Este erro não muda a pessoa que és, vai-te sim fortalecer.
- Não me sei perdoar.
- Pode ser que desta aprendas a fazê-lo, era importante sabes?!
- Olho para trás e não me reconheço naquilo, não me revejo.
- Obviamente que não trenga. Querias ser alguém que não és, por momentos foste... Foi uma merda e sentes-te uma merda porque tu estás bem como és! Now move on! Aprende com isto e não tenhas medo de pedir ajuda...

Oriana suspira, com a mão sobre o peito afligido...

- Fiz merda! - suspira - Paciência, isto quer é dias passados.


Oriana...

Borrega
(01/03/2010)

julho 31, 2010

Desesperadamente Júlia


Sozinha num quarto, olhos fitos no tecto, pequena perante o fardo que lhe aperta o peito, Oriana chora.
- 'Vó, porquê? Saudades de ser pequena, de quando o avô me levava às cavalitas ou na bicicleta, de quando o pai me lia histórias... - soluça, assoa-se. - O "Dumbo" era a nossa favorita. De quando a mãe me aconchegava e me chamava de "torrãozinho de açúcar". 'Vó, porquê? Saudades de ti e do braseiro onde aquecíamos os pés. Saudades de correr 'pó tio quando ele chegava fardado. Saudades, saudades, saudades... 'Vó...
Na penumbra do quarto, tenta respirar, arfando enquanto procura novo lenço de papel.
- 'Vó roga por mim... Toma conta de mim.
Levanta-se, veste umas calças de ganga, pega num casaco e sai para a noite fria...

Oriana...

Borrega
(15/10/2009)

P.S.- À minha Bis-avó Júlia. Tenho saudades!
Preciso de ir ver-te.

Créditos:
Música: Biffy Clyro - "
Diary of always"
(Não conhecia a banda, hoje resolvi experimentar e esta era a que estava a passar enquanto postava... Gosto!)

junho 19, 2010

Elásticos

Olha-lhe os pulsos pequenos, franzinos.
Olha-lhe os pulsos quando traz o cabelo solto, quando traz os caracóis ao vento, quando os traz a mirar o mundo, a mirar o tempo.
Oriana traz histórias no pulso.
Olhas e lá estará, um simples elástico castanho. Tempos houveram que era laranja, tempos houveram em que era vermelho... Tempos houveram ainda em que o elástico que trazia lhe parecia gigante tendo em conta o seu pequeno tamanho.
Oriana está sentada à janela, ora olha o horizonte, ora espelha-se nela.
Chora...
Chora...
Chora!
Soluça... Treme, tem frio, vem-lhe de dentro. Tem medo...
Respira fundo, em tentativa de se recompor...
Espelha o pulso na janela, afaga o elástico castanho que traz nele.

"- Porque raio voltaste agora, porque raio vens de noite quando durmo e me amas, me sorris e me abraças??
Deixa-me! Vai-te embora!

Porque quando te dei o elástico laranja, naquela hora, pus nele o coração, levaste-o no teu pulso, na tua mão...

Comprei então um vermelho, que não podia ter o pulso vazio e o cabelo sempre solto, revolto que estava por me teres posto o peito descomposto.

Vermelho...

Paixão...

Loucura...

Solidão...

Foste então embora, ficaste com o elástico laranja, é incontestavelmente teu.

Tirei o vermelho, pu-lo junto de tudo teu que pude arrumar, está lá no fundo do roupeiro, lá ficará.

Aí chegou ela, aliás chegou ainda mais perto, que ela esteve sempre lá!

Apanhou-me o cabelo, que lágrimas escorria, com este castanho que é tudo o que tenho para
abraçar.
Abraça-me tu. Levanta-me tu.

Só tu és mesmo minha, só tu estarás sempre lá...

Não és de sangue, mas de direito, o direito que a vida que és me dá.

Sabes, nunca devia ter perdido aquele elástico aos quadrados franzido, presente tão grande apesar de pequenino, que num dia da criança a minha mãe ao pulso me veio colocar...

Vou arranjar um, sabes? Vou junta-lo ao teu, para ter mais forças para acreditar."








Oriana espelha o elástico na janela e fala para o ar.
Já não chora, já parou de chorar.

Oriana...


Borrega

P.S.- I love you
"Gosto do teu cheiro... É o cheiro que me diz que tenho para onde voltar..."
"This is a dedicatory song"

Créditos:
Imagem:
Borrega@todos os direitos reservados

junho 06, 2010

White Dress

"Hey little sister what have you done"

Uma tola corre apressada pela margem, mãos no peito como se o coração lhe fosse fugir.
É um dia quente, neste Agosto incandescente, é indecente deixa-la assim, pomba branca, correndo apressada neste tempo dissolvente. Ainda vira tocha humana, o seu rosto já é brasa incandescente.
Estanca exausta, flecte os joelhos, verga o tronco que lhe pesa 100Kg pela angústia:
- Vem aí trovoada, as águas estão agitadas.
Um relampejo realiza-lhe a premonição e uma onda apaga-lhe a brasa do rosto e o rubor do peito.
Volta a correr...
O calor continua, a trovoada apregoa-se, as ondas agitam-se e ela vai-se desviando das investidas.
Vestido encharcado.
Ritmo acelerado.
Tem de lá chegar...
Tem de lá chegar antes das nuvens que ameaçam abafar a vermelha esfera incandescente.
Desvia-se de mais outra onda revolta, mão aperta-a no bolso.
A ponte!
Saca da máquina...
Já está...
O pôr-do-sol em Agosto...

"Cantei o meu amor ao vento
Porque sentia saudades
Saudades do meu lugar
Do primeiro amor da vida
Desse instante aproximar

Os campos do meu lugar
À chegada e à partida"


Oriana e as parábolas da su'Alma aluada

Oriana...

Borrega

P.S.- para ti que me "praxaste"
Love ya sis'

Notinha: Numa destas noites deu-se-me uma saudade gostosa, lembrança bonita que me assaltou.

Créditos:
Música:
Billy Idol - "White Wedding"
Donna Maria - "Pomba Branca"
Imagem: daqui

fevereiro 19, 2010

Odisseia#4


«Eu perguntei "porquê" apenas porque acho mais fácil falares o que te vai aí dentro...»

Menina-mulher, Oriana, em infindável campo de cravos... silvas, urtigas... lírios e orquídeas... altos e baixos.

Oriana...

Borrega

Créditos:
Imagem: todos os direitos reservados

fevereiro 04, 2010

Don't call me...

"How can I try to explain cause when I do he turns away again
And it's always been the same same old story
From the moment I could talk I was ordered to listen

Now there's a way and I know that I have to go away"



« Que merda!
Só me apetece berrar...
Como raio te atreveste?
Como raio me atrevi... Eu, a besta do costume, subtil como o elefante que sou, falo da boca para fora, sou baixa, reles mesmo, miro-te o ego, magoo-te os sentimentos que sei meus.
Mas como, como não vês por trás a verdadeira intenção, a mão estendida, do meu jeito espinhoso. Tu sempre viste o cravo por trás das silvas e urtigas que pus em redor... Tu conheces-me! Eu sou cabeça quente, sou, tu sabes, como a mãe.
Não devia ter posto aquele tom, devia ter pensado mais... Devia...
Estou a chorar sobre o leite derramado. Foda-se!
Tu também não pegaste leve. Sabes bem que, nem que subas a voz apenas meia oitava, eu choro...
Contudo, fingi, mantive o tom firme, decidido, de mimada, egoísta, que guardo para regar as urtigas e as silvas. Ao telefone fica fácil. Tal como, ao principio da conversa, fingi que aquele "O pai gosta de ti." não me tinha derretido, tocado a alma, dando-lhe colo e abrigo.
Caramba pai!
Só queria voltar a ser aquela menina pequenina que te corria para o colo, que tu erguias no ar e abraçavas. Depois eu sorria de alma cheia, dava-te um beijo "à esquimó" e apertava-te os lóbulos das orelhas. Sempre adorei senti-los frios nos meus pueris dedos quentes!
Oh pai...
Detesto este meu orgulho de merda!
Pai... Também tenho saudades, também te amo...
Desculpa...»

Oriana está sentada sobre o tampo fechado da sanita, barricada no cubiclo do seu wc...
Esta é mais uma carta para a sua caixa...

"Don't call me daughter, not fit to
The pictures capeted will remind me"

Oriana...

Borrega
(25/01/2010)

Créditos:
Música:
Johnny Cash and Rosey Nix - "Father and Daughter"
Pearl Jam - "Daughter
Imagem: Johnny Depp

fevereiro 03, 2010


There is this girl, you know... Her name is Oriana...
She looks like Christmas morning!
Her scent is like Spring,
Her body feels like Summer,
Her eyes are warm like Fall's afternoon
And her strength is like cold Winter.
There is this girl, you know...

Oriana...


Borrega

janeiro 29, 2010

Raizes Durienses


Num sofá que encara uma lareira viva, ela está com as costas recostadas num dos "braços" deste e as pernas pendentes no outro. De computador ao colo lê blogs, respira fundo e pensa.
A cadela entra sala a dentro.
Afaga-lhe a cabeça e, com um latido, ela pede-lhe que lhe abra a porta.
Fá-lo, sente o frio que faz lá fora, e volta para o sofá.
Amanhã há-de nevar, mas ela ainda não sabe isso. Há-de ficar impedida de voltar a Vila Real, mas também ainda não sabe isso. Por agora está apenas feliz por estar de volta a Santa Marta. É feliz aqui, sente-se bem, dá-lhe paz, a paz que precisa para se organizar.
Que raio é isso que se agiganta dentro de dela?
Fecha o pc.
(...)
Noite agitada, embora durma serena, sonhos turvam-lhe a mente.
Que querem dizer?
(...)
Neve. Acorda com o alerta de que neva lá fora. Corre para um mundo branco.
Anseia-o ali...
Gostava da mão dele na dela, passeando no branco.
Está difícil a volta a Vila, as estradas estão cortadas, típico.
Não é que se importe de mais uma noite nesta casa, de mais uma noite para pensar... Mas quer Vila e o colo da sua irmã.

Oriana e o branco Douro profundo.
Oriana e o abrigo da raiz que aqui tem.
Oriana e o branco.
Oriana e o imenso turbilhão que sente.

Oriana...

Borrega
(10/01/2010)

P.S.- Um obrigado especial à Loira e à sua casa


Créditos:
Cadela: Layla 25
Música: Pearl Jam
Imagem: daqui

janeiro 23, 2010

Desejo(s)


Queima.
Mas a ausência dá-se ao trabalho d'esfriar este calor terno que lh'adoça o peito. (Pensa ela!) Depois...
Depois não consegue dormir. Não lhe sais da cabeça, vagueias-lhe pelo peito.
O peito que quer ser teu porto d'abrigo, o peito que está lá, aberto de par em par, para que venhas e descanses os teus medos e das tuas batalhas.
E, quando vieres, ela abraçar-te-á e bastar-lhe-á que lhe sorrias com os teus olhos luz.
Oriana revira-se na cama, levanta-se e vem para o corredor escrever. Escrever sobre ele.
Oriana e o sentimento que lh'adoça o peito.

Oriana...

Borrega
(25/12/2009)
Créditos:
Imagem: Angelina Jolie

janeiro 01, 2010

Odisseia...


« - O lugar onde alguém pensa em você, é onde você pode voltar.
- Então, se alguém estiver pensando em mim, é para lá que eu tenho de voltar?
- É... Essa é a sua casa.»

Borrega

Créditos:
Diálogo:
in Naruto Shippuuden

dezembro 27, 2009

Indian Prayer (desatino com aroma a cravo e travo a mescalina)

Sou comum ao ponto de ser mundana.
Mais uma que te passou pela cama.

Largas-me no primeiro lixo que vês, a mim, à minha imaturidade e inexperiência, aos meus erros, às minhas facas e ao meu amor.
Segues.


Eu, toda partida, pego cacos, colo.
Ergo-me a medo, as pernas tremem.
Caio, uma e outra vez.
E tu não me vens levantar.
Já não te amo, percebo após quedas sucessivas.
Ando em frente com o que tenho (e é tanto!).

Sou comum, mundana. Continuo assim. Banal, duma pasmaceira quase irreal.
Acendo velas, peço a Deus que me ajude a mondar as ervas daninhas que tenho no peito.
Encho-o de cravos sempre que posso.

Sou carnal profana, desprovida de qualquer sentido, enquanto te tenho deitado no peito suado. Só te sinto aninhado, todo o restante pensamento, que nos salvou dum preâmbulo, foi-se naquelas três letras.
É tão bom, só te sentir.

Redenção.
Planto cravos, um mar deles.
E nesse mar, refastelo-me na areia e durmo.
Acalmo a tempestade e torno-a em ondas calmas, que beijam os cravos.

Corpo lavado.
Pesar da Alma escoado.
Coração acariciado.
Sinto-me tão melhor na minha pele, mundana, de mestiça.
Tento pôr os pés no chão e não voar nas asas da águia…

Mestiça mundana, sentada num telhado, olhando o pôr-do-sol, ladeado pelo cipreste d’onde o anjo xamã me sopra graça, me sopra fé.

Comum, banal, beijo cravos, quase especial… (Ir)real!!!



Borrega

Créditos:
"This is a dedicatory song": À Oriana, que nunca me deixes a Alma...
Imagem: by Borrega (todos os direitos reservados)

dezembro 09, 2009

Rifa-se um coração (quase) novo#2

"Todos os dias, quando acordo, vou correndo tirar a poeira da palavra amor..."
(Clarice Lispector)


Localização: Do lado esquerdo

(***)

Oriana já não tinha uma noite destas há algum tempo. Ele não lhe saía da cabeça, não lhe dava descanso. Ela queria dormir e as imagens dele, o cheiro, a lembrança do toque, não a deixavam.
Oriana é meia concha apertando o seu Coraçãozinho de madrepérola que, a cada lembrança daquele olhar luz, bate em espasmos electrizados.
Lá o acalma com doces afagos, perscruta-lhe as cicatrizes, estão mais saradas. Está bonito, mais crescidito, vigoroso.
Revira-se, volta a revirar-se e, mais umas quantas reviravoltas depois, volta à posição inicial.
- Que raio anseio eu? - pergunta ao ar, pois sabe a resposta.
- Um abraço, um abraço transversal, um que te toque a alma, um que me afague a mim e te deixe fazer o mesmo. - responde-lhe o Coração.
- Dorido? - atira, mudando a direcção.
- Cativado. - reencarrilha-a o Coração.
Suspira.
Esboça um sorriso d'olhos brilhando no escuro.

Acorda meio desnorteada, meio desiludida, abraçando uma almofada.
Maldito despertador, há meio minuto atrás dormia abraçando-o, com a certeza dos olhos luz abrindo para o novo dia sincronizados com os dela.
Suspira.
Oriana e as lembranças d'olhos luz.
Oriana e as lembranças que lhe atravessam o sono.

Oriana...

Borrega

Créditos:
Música:
Incubus - "Dig"

novembro 23, 2009

Casinha de chocolate


Ouve o costumeiro "click" da velha fechadura a anunciar que a porta está aberta.
Tem o cheiro do tabaco emaranhado na roupa, o dele entranhado no corpo. Na boca o agridoce travo da amêndoa amarga.
Outro "click", porta trancada, pendura as chaves no sitio do costume, deixa a mala sobre a mesinha do hall. A roupa vai sendo deixada pelo caminho, como um rasto para que Gretel possa encontrar a saída do seu pequeno cubículo aconchegante.
Chega já nua à aparelhagem, enche o quarto com o som daquela voz, com aquele sotaque dum inglês particular, um inglês com cunho d'autenticidade. Balança numa dança sozinha, encaminhando-se para a cama, puxa os lençóis para traz e deita-se.
Olhos perdidos encaram o tecto, pintando-o ao som da música e de todos os pensamentos que a assaltam, por mais banais, por mais insignificantes que sejam.
Disseca, elaciona, equaciona, interioriza.
Oriana respira fundo, suspira com força.
Demasiado entranhado, pensa.
O gato, que por ali cirandava, como que percebendo-a carente, aninha-se-lhe no peito.
Afaga-o, agradecendo-lhe.
Fecha os olhos embalados pela promessa que a música apregoa à noite:
"Wild horses couldn't drag me away
Wild, wild horses, we'll ride them some day"

Adormece, só, na sua casinha de chocolate.

Oriana...

Borrega
Créditos:
Música:
Rolling Stones - "Wild Horses"

novembro 17, 2009

Histórias de lareira

Pega-a no colo.
Até parece fácil, apesar de ser pouco mais pesado que ela.
Aperta-a bem contra o peito e ela reconforta-se com aquele tamborilar incessante e vigoroso do coração dele.
O sofá está perdido olhando as crepitantes labaredas da lareira e chama-os para se lhe juntarem.
Ele, como se ela fosse porcelana, senta-se cuidadoso. Ela torna as pernas dele almofada e estende-se, na sua pequenez, pelo sofá.
Ele pega num livro e começa a lê-lo.
A voz dele acaricia-lhe os ouvidos, mima-lhe a alma, então Oriana ri, com um dos seus sorrisos de criança feliz, ouvindo história d'encantar.

Oriana...

Borrega

Créditos:
Imagem:
daqui