junho 14, 2009

fim de tarde

A relva fumegava pelo cigarro que ele acabava de atirar para longe da mesa onde estavam. Um de muitos que fuma por dia…

Tem o olhar no vago, enquanto ouve (?) música no mp3. Ela não está melhor, ouve, pela enésima vez, aquele álbum dos U2 a passar nas colunas do café, tentando mergulhar nas páginas do seu livro. Mas é como lhe disse uma vez, não há botão para desligar e a sua cabeça, tal como deduz da dele, está a mil.





Borrega

junho 12, 2009

Barracão puído

Olha o velho barracão, está puído pelo tempo.
Sente aquele toque na mão. Sabe bem o que é, então tira da mala o Black Devil que ele lhe deu.
Está meio gasto por tantas horas a pensar com ele nas mãos. Mas, mais uma vez, imita o ritual que adquiriu naquele barracão: bate-o contra a palma da mão. As saudades acalmam.
Não mais voltará a ser a criança a quem, naquele barracão, o avô batia o tabaco na palma da mão, para depois ir fumá-lo longe dela.
Já não é aquela menina. Volta para casa, espera-a uma longa busca pela cabeça que perdeu. Esperemos que o Black Devil dure…






Borrega


junho 11, 2009

Sentada

E sentada, sozinha, no meio do jardim, acompanhada apenas pelo som murmurado do rio e a brisa do fim de tarde, ela finalmente chorou...
Tem medo, tem saudades, tem a cabeça numa bagunça, tem o corpo num desgasto só... Parece um farrapo e, ainda assim, insiste em caminhar. Não mudou assim tanto que tenha adquirido a coragem ou cobardia suficiente para desistir....
Tem gente que a faz sentir gente e começa a conseguir andar mais equilibrada com apenas três pernas.
Isso não implica que não sinta a perda da quarta, sentir-lhe-á sempre a falta, mas a dor no seu membro fantasma já amainou.

E sentada no jardim, sozinha, ela chorou!



Borrega



Nota: gostei da imagem, tem milho! Como ribatejana que sou e estando emigrada em Trás-os-montes, tenho saudades do milho!!!!!

cinzas

O cheiro a queimado e o fumo negro iam povoando o ar. Ela olhava o fogo e os lençóis a contorcerem-se por entre as impiedosas chamas.
As labaredas iam esmorecendo e, com receio que se extinguissem, ela deitou mais álcool nos lençóis. Tinham de arder até não passarem de cinzas, tinham de desaparecer.
Oriana tinha a noção do quão louco era aquele acto, mas precisava dele para purgar a alma. Aqueles lençóis não tinham culpa de cheirarem como ele, de, apesar de nunca terem envolvido o corpo dele, cheirarem à sua pele alva, ao corpo porque ela ansiava o retorno.
Tal como é costume às quartas-feiras, tinha feito a cama de lavado. Contudo, quando se deitara e se aconchegara nos lençóis, o cheiro dele estava lá. Levantou-se frenética, arrancou-os da cama, espezinhou-os lavada em lágrimas e em gritos doloridos. Depois acabou por adormecer num sono revolto por cima do colchão desnudo. Mal acordou, pegou neles e foi queimá-los.
E agora aqui está a vê-los arder e não se sente melhor, apenas mais louca! O lume abranda, extingue e ficam as cinzas. Está impregnada com o cheiro do fumo, mas ainda distingue o cheiro dele na sua pele, na sua memória.
- Merda! - resmunga entre dentes. - Achaste mesmo que o reduzirias a cinzas como aos estúpidos dos lençóis? Parva! Nunca ficarás sem ele, é parte de ti, do que foste, do que te tornaste. Mudou o que serás. Limita-te a sobreviver! Ignora o perfume doce que reduziu o teu amargo aroma. Aprende a estar bem! – auto-repreende-se.
- Esquece esta infantilidade e vai tomar banho. – roga-lhe a Consciência.
Voltando costas às cinzas, Oriana corre para debaixo do chuveiro, para lavar a vergonha que sente de si, das cinzas que ainda é! Quando renascerá a Fénix????

Oriana…




Borrega

junho 10, 2009

"I cry when angels deserve to die" (5/4/05-9/6/09)


Está sol, sol é dizer pouco, está uma brasa.
Um homem, em tronco nu, cava um buraco, perto do outro que cavou anos antes. Tal como anos antes, está triste, perdeu um amigo. Cada vez que o buraco vai ficando mais fundo, mais lhe dói, mais sente a tristeza da menina que, lá em casa, chora por aquela partida.
O homem sua, está cansado, mas não pára até ter feito a cova. Olha agora para o lado, está lá o seu pequeno índio à espera, calmo e sereno. Morreu feliz, teve uma vida cheia. Continua a ter aquele ar doce, que nem o fel do luto lhe lavou da cara.
Pega-o como a um filho, e deposita-o no fundo do buraco. Ele há-de gostar de repousar ali, está ao lado da sua mãe.
O homem é ateu, o homem não acredita, contudo, tal como pela mãe, faz a reza por aquilo que acredita, pelo carinho que lhes tem, pelos passeios pelo campo, pelos sorrisos ao vê-los correr atrás dos coelhos, dos ouriços e das cobras. Ele reza e a menina chora. Ele está encharcado em suor e ela em lágrimas. Ele volta para casa e ela sai de lá e vai correr pelo campo, onde antes corria com ele, o seu índio de olhos de mel...

Sioux...

«Indian, indian, why did you die for? Indian say: "nothing at all."»
Jim Morrison


Borrega


Créditos:
titulo: trecho da música "Chop Suey", Sistem Of A Down

junho 07, 2009

noites de Oriana

O corpo, apesar do seu quê de franzino, já não é de menina. Contudo, o rosto mantém-se pueril e nesta noite, como em outras, atormentado.
Oriana dorme abraçando algo que parece muitíssimo importante.
(...)
As torradas e as canecas de leite são banhadas sobre a mesa pelos raios tímidos que rompem por entre as nuvens. Ouvia remexer-se na cama toda a noite, mas sem nunca largar o que quer que fosse que pensava abraçar.
Acordei-a o mais meigamente possivel, pedira-me que não a deixasse dormir até muito tarde, tinha de estudar.
Abriu os olhos, meio perdida e, de imediato, olhou para os braços nus e sós. Não tive de lhe perguntar, ela entreviu a curiosidade nos meus olhos e pediu que lhe chegasse o computador. Enquanto esse ligava disse:
- É algo um pouco digno de dó. - diz corada...
- Não tens de contar, estou curiosa, mas não tens de o fazer.
Está já demasiado absorvida no que procura na net para me responder, sei que quando o fizer será com a sua explicação.
Após um suspiro meio dorido, diz:
- Lembraste do filme Notting Hill, certo?
Aceno afirmativamente.
- O que te vou ler é um diálogo entre as personagens principais:
«- Rita Hayworth used to say, "They go to bed with Gilda; they wake up with me."
- Who's Gilda?
- Her most famous part. Men went to bed with the dream; they didn't like it when they would wake up with the reality.»
Eu todas as noites adormeço a abraçar a minha pequena esfera de eternidade, nela estão todos os momentos mais felizes, e todos os dias acordo sem nada.
Escorre-lhe já uma lágrima matreira pela face extremamente corada pela revelação. Abraço-a.
- Oriana, não é deprimente, não tens de ter vergonha. E os momentos continuam lá, só acordas sem eles porque é a forma que eles têm de te mostrar que tens de seguir em frente.


Oriana...


Borrega
("rapariga, move on!")

Créditos:
Filme: Notting Hill

infância (alva aurora da existência)

Entrou no quarto, vinha enfurecida, coisas típicas de quem está na terrível fase das incertezas e descobertas... As paredes estavam “salpicadas” com posters, calendários, poemas, citações... Largou a mala e começou a arrancá-los, um a um, sem os danificar, pois, no fundo, eram pedaços de si, mas ansiava, desesperadamente, ver de novo as alvas paredes nuas, como ela estava quando era apenas feto, refugiado no aconchego protector do útero de sua mãe. Depois de alguns minutos de puro frenesim, lá estavam elas, límpidas e alvas, como a mente de uma criança, tão ingénuas.
Fechou então a pequena caixa florida onde tinha colocado tudo o que antes forrava as barreiras do seu mundo. Respirou fundo e dirigiu-se à cómoda, onde fez arder o incenso, que tanto a acalmava. Pôs a tocar aquela música, a daquele poeta marginal de voz eterna, que tem por fundo uma copiosa tempestade e deitou-se no tapete, onde gostava de se estirar para reflectir e divagar. Observou a panorâmica nevada da divisão, fechando os olhos logo de seguida.
Ela não tinha pedido para estar ali, não tinha pedido para ser arrancada do útero que a carregava, mas tinha pedido para crescer, para ser grande e percebia agora que, tal como lhe tinham dito, queria voltar a ser pequena. No entanto, o tempo não podia voltar a atrás. Sentia falta de ser pegada no colo e mimada, sentia falta das história antes de adormecer, sentia falta de quando achava que cair e esfolar um joelho era o pior mal que podia existir, sentia falta de quando achava que o mundo não tinha fim, sentia falta da pura ignorância, da ingénua criança que fora outrora... Queria tanto voltar a ser pequena!
A alva aurora da sua existência tinha sida tão calma, de uma doçura tão branda... Actualmente debatia-se para conseguir sobreviver no complicado mundo dos adultos, todo ele cheio “números, raízes quadradas e somas subtraídas, sempre com a mesma solução: nada”. Essa é a verdade, à medida que crescemos as responsabilidades, pressões e preocupações são tantas que começamos a não ter nada. Enquanto que, naquele tempo cândido e alegre temos a eterna novidade do mundo, uma curiosidade insaciável que nos povoa o imaginário com a ajuda, é claro, duma fértil imaginação e das maravilhosas histórias ouvidas. O mundo seria tão melhor se, ao crescermos, não matássemos a criança que temos em nós... Tudo seria mais simples, mais claro, tão menos malicioso...
Abriu os olhos, o quarto estava um pouco enevoado, devido ao incenso que se ia desfazendo em cinzas, tal qual o Homem que vai do ouro e se deixa corromper pelas chamas duma sociedade com princípios decadentes, acabando num pedaço de metal enferrujado e só.

Borrega


P.S.- to my Honey (bitchinho)

Créditos:
Músicas: The Doors - "Riders on the storm"
Toranja - "Carta"