setembro 12, 2012

Childhood Living

Há uns dias fui ao café, beber uma bica, como se diz na minha terra. Tanto a minha avó como a minha mãe, aliás como todos os adultos à minha volta, sempre me fizeram acreditar que o dito café que ia naquela pequena chávena era quase uma cura mística. Quantas e quantas vezes a minha avó me dizia: "Anda, vamos ali ao café, para a avó beber uma bica a ver se arriça.".
Esse costume ficou-me, adoro a minha bica depois de almoço ou jantar, muitas vezes também eu para ver se "arriço". E então, há uns dias, depois de jantar lá fomos nós.
Estavam várias crianças a correr pelo espaço, brincando entretidas, enquanto as mães desfrutavam de dois dedos de conversa e uma chávena milagrosa. Uma das catraias devia ter perto de dois anos, empurrava um carrinho de bebé, proporcional ao seu tamanho, entre a nossa mesa e a das mães, quando de repente se agacha ao meu lado.
Olhei para baixo, para ver se estava tudo bem e nesse momento vejo-a passar o dedinho curioso pelo meu pé, onde a sabrina deixava a descoberto um trecho da frase que tenho tatuada. Levanta o dedinho espantado e volta a passá-lo. De seguida, como que pressentindo os meu olhar, ainda agachada, vira a cabeça pequenina e encara-me curiosa.
Sorri. Ela levantou-se e empurrou o carrinho dali.


Borrega

Créditos:
Música: Rolling Stones - "Wild Horses"
Vocabulário: "arriça", "arriço" - espevitar, ganhar animo.
Imagem: achada algures numa das páginas que sigo no FBook

agosto 26, 2012

Inverno

Odeio o facto de teres "pézinhos de lã". Chegas do nada, meu Fantasma de memórias, e ligas a luz do que quero deixar lá bem no escuro. Assim vejo-te em todo o lado, quero-te em todo o lado, fico com o corpo enregelado.
Como é que algo se enraíza assim, desta maneira tão funda e sem fim, em alguém?
Como é que minto tantas vezes e me convenço tantas vezes que já não te amo e, do nada, num piscar de olhos, vergo sobre mim mesma a gritar por ti, a implorar pelo bálsamo dos teus braços?
Impressiona-me demais o tamanho do vazio que carrego. É por isso que me refugiei neste estado de não escrever (para quê vou ter sempre ao mesmo?), de não falar, de não gritar por ajuda, nesta mentira de que está tudo bem. Mas adivinha, Fantasma: O rei vai nu. E mais tarde ou mais cedo toda a gente vai ver, porque a mentira é um manto esfarrapado.
Mas até lá ando assim, a fingir que é Verão, quando apenas há Inverno em mim.

Borrega

Créditos:
Imagem: daqui
Música: Pearl Jam - Alive

agosto 07, 2012

Primavera

Uma criança puxa-lhe a barra do vestido. Olha para baixo, para aqueles olhinhos inquisidores e vivazes.
- Nana, o que é o amor?
Nunca lhe chamara avó, apenas "nana" e ela gostava, fazia-a sentir-se menos velha. Mas, como se explica a uma criança o que é o filho da mão desse sentimento que, seja carnal ou fraternal, nos arranca do chão, nos aflige o peito?
Um dia Alguém lhe tinha ensinado o que era...Então baixou-se, pondo os seus olhos cansados ao nível dos da vivaz criança e replicou:
- É mais do que ontem e menos do que amanhã.
Naqueles olhinhos aquietou-se a curiosidade.
- Entendes, pequena?
- Sim, então é o mesmo que a saudade.
E nela viu-se um sorriso antes de a sua cara se enterrar no cabelo da criança, para lhe depositar um beijo...

Créditos:
Imagem: Diane Arbus

julho 03, 2012

Músicas-que-não-se-devem-cantar-no-chuveiro #2

[Ben Harper - Sexual Healing]

Pulga e Borrega

junho 07, 2012

Cavaleiros da Mesa Redonda

Que não lhe tirem aquele abraço, aquela festa na cabeça e aquele beijo na testa. Que não lhe tirem as discussões concordantes, que acabam em gargalhadas, na mesa redonda. 
Que não lhe tirem os cavaleiros!
Porque no dia em que eles se forem, ela vai deixar a armadura sucumbir.
Os risos serão substituídos pelas lágrimas, os abraços e festas serão apenas fantasmas que não a trazem mais à realidade e a mesa redonda será abandonada. 
Sem argumentos. 
Sem vitalidade.

Pulga

maio 15, 2012

Portugalidades

O Portugal que tenho guardado é um que já mal se vê e que vai sobrevivendo apenas nas aldeias.
É o Portugal das mercearias, das barbearias e dos cabeleireiros nas traseiras duma casa, dos mercados semanais... o Portugal do Campino, do Forcado, do Pescador, da Varina e do Fado e da Fadista.
Nesse Portugal não se trancam portas e pede-se uma chávena de açúcar à vizinha, que se lhe paga com meia dúzia de ovos da nossa galinha poedeira, a contra vontade da dita vizinha que nada queria em troca.
Muitos lhe chamariam um Portugal provinciano, eu chamo-lhe um Portugal de Simplicidade.
Mas não é esse o Portugal destes dias.
Vive-se tão embrenhado no contra-relógio de se querer ser um país de primeira linha e no jogo de cintura dum país em cacos que não se olha para o lado, não se ajuda ninguém, não se sabe o nome da vizinha, por isso se não há açúcar bebe-se chá amargo e mata-se o meu Portugal Simples...
Também numa correria vinham duas cachopas, para tentar apanhar o autocarro, carregadas de compras. O motorista lá as vê e encosta na paragem. Quando uma delas dá conta que não tem dinheiro para o autocarro e a outra apenas tem para ela.
[Modernice de multibanco faz com que não andemos com dinheiro no bolso, hmpf !]
Então ela diz ao motorista que por favor a deixe ir, porque na paragem de chegada lhe dará o dinheiro. Ele deixa.
Ligam à colega de casa para que esteja na paragem com a moedinha que paga a viagem.
Não precisavam, porque discretamente um Senhor se chega perto delas e pousa uma pequena moeda no colo da cachopa, com um olhar complacente.
Estupefacta, a cachopa diz-lhe que não é preciso, que a colega estará à espera, ele recusa a moedinha de volta.
À saída põe-a no bolso do senhor com um "Obrigado" e a colega lá paga o autocarro...

E a cachopa, eu, tive a certeza que ainda se pode pedir chávenas de açúcar.

Borrega

Créditos:
Música: Amália Rodrigues - Uma Casa Portuguesa 

março 21, 2012

Músicas-que-não-se-devem-cantar-no-chuveiro #1

Mais uma crónica aqui para o cantinho que anda parado. Comecemos então com Rape Me dos Nirvana :


Pulga e Borrega