janeiro 19, 2013

Quatro.

Uma festa, por mais pequena que seja, tem de ter música e este post é a nossa celebração de 4 anos de blog. Logo decidimos escolher 4 músicas cada.




Eu escolhi 4 músicas usadas pela Borrega:


e, eu escolhi 4 usadas pela pulga: 

Parabéns ao Zoo,
Pulga e Borrega

novembro 18, 2012

De ursos de peluche e super-heróis


Tomás é um pequeno rapaz de cinco anos. Hoje os pais quiseram trazê-lo ao rio. 

O pequeno Tomás tirou a roupa e pegou no seu pequeno urso de peluche e na mão da sua superprotectora mãe e correu para a àgua. Correu, que é como quem diz, que com a mão apertada da mãe e as pedras a espetarem-se nos pés, ele vai saltitando o mais depressa que pode.
O pai segue-os com um olhar enternecido e brincalhão. 
Assim que chegam à beira-rio, o pai convence o pequeno a deixar o Teddy em terra, que a àgua não é sítio para um urso de peluche. O pequeno cede, mas com algumas exigências - o pai vai ajudá-lo a mergulhar. Não que o Tomás tenha medo de mergulhar sozinho. Não, senhor! Mas  os ânimos dos pais ficaram muito mais apaziguados deste modo.
Tomás nada teme, porque os super-heróis nada temem. Sim, de noite, Tomás veste a sua capa e ao lado de Teddy enfrentam tudo o que dá medo - tanto a grandes crescidos como a crianças mais pequenas que Tomás.
Mas hoje, o seu pijama de super-homem, vai provavelmente ficar pendurado, pois o pequeno já vai bem aconchegado no mundo dos sonhos, depois da sua aventura no rio.

Pulga 
[a propósito disto]

novembro 11, 2012

K.

Toca-lhe na cara com as mãos molhadas, e encosta-se a ela como se ela a qualquer momento lhe fugisse da cama. Envolve-a com o seu braço e ela agita-se no seu sono. Não a quer acordar, ainda há tão pouco ela chegou e só têm estes bocadinhos para eles. Ele sabe que ela não tem tanta liberdade ou tempo como isso, para passar a noite com ele. Nem sequer de dia, caraças!
Sussurra-lhe palavras doces sem sentido ao ouvido. Ela faz biquinho com os lábios. Raios! Já está acordada. Encosta os lábios aos dela. Abraça-a e rebola para cima dela e volta a beijá-la, desta vez com mais intensidade. Passa outra vez a mão na cara dela, não está molhada, mas está gelada. Ela franze a testa, estica a mão na direcção da cara dele e ...




'Rrrrrrrr'
'Sim K., és o 'homem' da minha vida. Oh, que seria de mim sem ti, a acordar-me às..', faz uma pausa e olha para o relógio na mesa de cabeceira, '7h30.'
Passa a mão no lombo do gato, que se encosta e ronrona como um pequeno tractor. 
'Anda lá comer, gato do demo.' O gato ronrona ainda mais alto, se possível. Ela fita-o. 
'Ao menos, este seguir-me-á para sempre.' Pensa, enquanto esboça um sorriso.

Pulga

setembro 28, 2012

Prantos vãos ...

Oriana está sozinha no cemitério. Nunca lá gostara de estar com mais gente do que a que lá jazia. Sempre dissera que era dos vivos que se tinha que ter temor e não aos mortos.
Senta-se sobre a tumba de sua avó, encarando-a na foto preta e branca e sussurra:
- Estou cansada 'Vó, não dormi... Rezei-Lhe de forma tão irada.
Tira do bolso um papel amarrotado. Estende-o sobre a pedra mármore, deixando assim à vista as letras pelas lágrimas borratadas. Aclara a voz e lê num sussurro sôfrego:
«
Roguei aos céus
E caíste-me no caminho
Anjo Negro
Varreste os campos,
As tuas asas bem abertas, 
na esquerda as 7 pragas, na direita os 7 pecados.
Agora as colheitas são estéreis, secas, ocas, amargas.

Eu, 
estupefacta p'lo rasgo que me fizeste na carne, p'lo pranto que me embutiste nos ossos, 
enfureço-me contra os céus.
Que roguei por um anjo e tu foste demónio desviante,
Anjo Negro, Lúcifer de auréola disfarçado.

As contas do rosário já os meus dedos as sabem de cor.
Correm-nas vexados e amargurados, pois ainda queimam com teu suor.
E, de joelhos rezando, pego em fita de tecido benzido,
Uso-a de espartilho pra me suster as entranhas.
 Esta ferida é chaga amaldiçoada,
Sei bem que só espartilhada, nunca sarada.

Nos campos secos nasceu um cravo,
Eu, de cicatriz fingida com esta fita alegre benzida,
Pego nas alfaias pra semear.
Mas preciso que me guiem, pois já nem na simples enxada sei pegar.
»

Suspira, com se lhe tivessem tirado um fardo dos ombros. Dá uma festa ao retrato.
- Sim 'Vó, sei que o pão amena todas as tristezas. Que o vinho e a música animam até a mais trôpega das almas.
Sorri e troca as velhas flores da jarra por um cravo.

Oriana ...

Borrega

Créditos:
Música: PJ Harvey - The Dancer
Filme: Red Riding Hood
Imagem: daqui

setembro 12, 2012

Childhood Living

Há uns dias fui ao café, beber uma bica, como se diz na minha terra. Tanto a minha avó como a minha mãe, aliás como todos os adultos à minha volta, sempre me fizeram acreditar que o dito café que ia naquela pequena chávena era quase uma cura mística. Quantas e quantas vezes a minha avó me dizia: "Anda, vamos ali ao café, para a avó beber uma bica a ver se arriça.".
Esse costume ficou-me, adoro a minha bica depois de almoço ou jantar, muitas vezes também eu para ver se "arriço". E então, há uns dias, depois de jantar lá fomos nós.
Estavam várias crianças a correr pelo espaço, brincando entretidas, enquanto as mães desfrutavam de dois dedos de conversa e uma chávena milagrosa. Uma das catraias devia ter perto de dois anos, empurrava um carrinho de bebé, proporcional ao seu tamanho, entre a nossa mesa e a das mães, quando de repente se agacha ao meu lado.
Olhei para baixo, para ver se estava tudo bem e nesse momento vejo-a passar o dedinho curioso pelo meu pé, onde a sabrina deixava a descoberto um trecho da frase que tenho tatuada. Levanta o dedinho espantado e volta a passá-lo. De seguida, como que pressentindo os meu olhar, ainda agachada, vira a cabeça pequenina e encara-me curiosa.
Sorri. Ela levantou-se e empurrou o carrinho dali.


Borrega

Créditos:
Música: Rolling Stones - "Wild Horses"
Vocabulário: "arriça", "arriço" - espevitar, ganhar animo.
Imagem: achada algures numa das páginas que sigo no FBook

agosto 26, 2012

Inverno

Odeio o facto de teres "pézinhos de lã". Chegas do nada, meu Fantasma de memórias, e ligas a luz do que quero deixar lá bem no escuro. Assim vejo-te em todo o lado, quero-te em todo o lado, fico com o corpo enregelado.
Como é que algo se enraíza assim, desta maneira tão funda e sem fim, em alguém?
Como é que minto tantas vezes e me convenço tantas vezes que já não te amo e, do nada, num piscar de olhos, vergo sobre mim mesma a gritar por ti, a implorar pelo bálsamo dos teus braços?
Impressiona-me demais o tamanho do vazio que carrego. É por isso que me refugiei neste estado de não escrever (para quê vou ter sempre ao mesmo?), de não falar, de não gritar por ajuda, nesta mentira de que está tudo bem. Mas adivinha, Fantasma: O rei vai nu. E mais tarde ou mais cedo toda a gente vai ver, porque a mentira é um manto esfarrapado.
Mas até lá ando assim, a fingir que é Verão, quando apenas há Inverno em mim.

Borrega

Créditos:
Imagem: daqui
Música: Pearl Jam - Alive

agosto 07, 2012

Primavera

Uma criança puxa-lhe a barra do vestido. Olha para baixo, para aqueles olhinhos inquisidores e vivazes.
- Nana, o que é o amor?
Nunca lhe chamara avó, apenas "nana" e ela gostava, fazia-a sentir-se menos velha. Mas, como se explica a uma criança o que é o filho da mão desse sentimento que, seja carnal ou fraternal, nos arranca do chão, nos aflige o peito?
Um dia Alguém lhe tinha ensinado o que era...Então baixou-se, pondo os seus olhos cansados ao nível dos da vivaz criança e replicou:
- É mais do que ontem e menos do que amanhã.
Naqueles olhinhos aquietou-se a curiosidade.
- Entendes, pequena?
- Sim, então é o mesmo que a saudade.
E nela viu-se um sorriso antes de a sua cara se enterrar no cabelo da criança, para lhe depositar um beijo...

Créditos:
Imagem: Diane Arbus