junho 11, 2009

cinzas

O cheiro a queimado e o fumo negro iam povoando o ar. Ela olhava o fogo e os lençóis a contorcerem-se por entre as impiedosas chamas.
As labaredas iam esmorecendo e, com receio que se extinguissem, ela deitou mais álcool nos lençóis. Tinham de arder até não passarem de cinzas, tinham de desaparecer.
Oriana tinha a noção do quão louco era aquele acto, mas precisava dele para purgar a alma. Aqueles lençóis não tinham culpa de cheirarem como ele, de, apesar de nunca terem envolvido o corpo dele, cheirarem à sua pele alva, ao corpo porque ela ansiava o retorno.
Tal como é costume às quartas-feiras, tinha feito a cama de lavado. Contudo, quando se deitara e se aconchegara nos lençóis, o cheiro dele estava lá. Levantou-se frenética, arrancou-os da cama, espezinhou-os lavada em lágrimas e em gritos doloridos. Depois acabou por adormecer num sono revolto por cima do colchão desnudo. Mal acordou, pegou neles e foi queimá-los.
E agora aqui está a vê-los arder e não se sente melhor, apenas mais louca! O lume abranda, extingue e ficam as cinzas. Está impregnada com o cheiro do fumo, mas ainda distingue o cheiro dele na sua pele, na sua memória.
- Merda! - resmunga entre dentes. - Achaste mesmo que o reduzirias a cinzas como aos estúpidos dos lençóis? Parva! Nunca ficarás sem ele, é parte de ti, do que foste, do que te tornaste. Mudou o que serás. Limita-te a sobreviver! Ignora o perfume doce que reduziu o teu amargo aroma. Aprende a estar bem! – auto-repreende-se.
- Esquece esta infantilidade e vai tomar banho. – roga-lhe a Consciência.
Voltando costas às cinzas, Oriana corre para debaixo do chuveiro, para lavar a vergonha que sente de si, das cinzas que ainda é! Quando renascerá a Fénix????

Oriana…




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